Ler Clarice aos quarenta: o que muda
Um ensaio sobre voltar a um autor depois de vinte anos e encontrar outro livro.
Aos vinte, Clarice Lispector me pareceu uma escritora sobre o vazio. Aos quarenta, me parece uma escritora sobre o cheio — sobre o impossível de caber numa vida comum, e o esforço de tentar mesmo assim.
Reabri A paixão segundo G.H. no avião, por acaso, numa viagem curta. Li o primeiro capítulo três vezes. Não por dificuldade: porque cada frase pesava diferente de como eu lembrava.
Há uma diferença entre ler um livro e reler. A primeira leitura descobre o livro; a segunda descobre o leitor que voltou. Eu era outra. O livro era o mesmo. O encontro, não.
O que mudou: perdi o medo da fragilidade. Aos vinte, eu queria que Clarice explicasse. Aos quarenta, aceito que ela aponte. Não há solução no texto — há uma direção.
Recomendo reler aos quarenta tudo que marcou aos vinte. Não por nostalgia. Porque o livro vira espelho do tempo, e a gente só vê isso quando volta com outra cara.
Saí do avião com o livro na bolsa e a sensação estranha de que tinha lido duas autoras com o mesmo nome. Uma aos vinte. Outra agora. Nenhuma das duas é a Clarice — sou eu que fui duas.