Sobre o silêncio das manhãs de quarta-feira
Uma crônica sobre o ritmo estranho do meio da semana nas cidades pequenas.
Há um silêncio particular nas manhãs de quarta-feira em cidade pequena. Não é o silêncio do domingo, que tem peso de descanso. É um silêncio leve, meio surpreso, como se a semana tivesse parado para respirar e não soubesse bem por quê.
Na padaria, às sete e meia, só duas mesas estão ocupadas. Um homem lê jornal de verdade, em papel, com os óculos na ponta do nariz. Uma mulher escreve num caderno sem levantar os olhos. O garçom passa pano na mesma mesa três vezes.
Eu gosto desse horário. Em cidade grande, quarta de manhã é igual a segunda: prensa, buzina, café no copo descartável. Aqui não. Aqui a quarta chega devagar, como quem entra numa sala e ainda procura onde sentar.
Saí da padaria e fui andar. A livraria estava fechada — abre às nove. A banca estava fechada — abre às nove e meia. A única coisa aberta era o tempo.
Pensei em escrever sobre isso a semana toda. Acabei escrevendo agora, quarta, dez da manhã, ainda dentro desse silêncio. Talvez ele passe logo. Mas enquanto dura, é bom saber que existe.